sexta-feira, 6 de abril de 2018

Eu, comigo.

Ele me olha como quem olha um problema de matemática a ser resolvido. Parece que tenta entender a que mundo eu pertenço. Para ele, meus movimentos são ilógicos, incongruentes e contraditórios. Eu o observo estático e quase consigo ler seus pensamentos.



Cercada de livros, sento no banco da praça ao lado das flores e sorrio pra desconhecidos. A calmaria tem sido algo presente nos meus dias depois que fiz as pazes com a solidão. Gosto daqui, do lugar onde estou. Não tenho que dar satisfações sobre para onde vou ou com quem vou, não sinto necessidade de comprar roupas novas para me exibir pra meninas que eu detesto, não fico mais em casa chorando, remoendo, me sentindo inferior a elas, não passo mais horas revirando na cama me perguntando o porquê de ele não querer estar só comigo.
Abrir mão dessa infelicidade foi com certeza a coisa mais difícil que já fiz, mas foi também a mais libertadora. Você me olha e não entende, mas essa para quem você olha é a junção de um furacão de acontecimentos.
Não faz muito tempo eu tinha alguém ao meu lado para dizer que regras eu deveria seguir. Ele me dizia que roupas vestir, com que amigos falar, quais comportamentos deveria ter e eu obedecia. Em um dos meus poucos momentos de lucidez e rebeldia, discordei e ele usou a força para me mostrar o quão doloroso seria se acontecesse de novo.
Tudo estava um caos. E essa palavra nem sequer fazia parte do meu vocabulário até então. Eu odiava a garota que via quando dava de cara com o espelho. Odiava as condições que era forçada a cumprir para não continuar só. Odiava a dependência que criei que não me permitia ir embora.
Levou um tempo, mas eu fui em frente. Não me restou muito e o pouco que restou carrego comigo. Em cada cicatriz uma lembrança das batalhas que lutei para chegar até aqui. Você diz querer entrar, mas embora tenha muito o que se ver aqui, não tem espaço.

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