E isso é tudo que eu poderia querer.
Filha de pais separados, mãe que trabalhava fora, criança com poucos amigos. Desde cedo eu tive que aprender a gostar da minha própria companhia. Eu tirava os brinquedos do baú, espalhava pela casa e brincava boa parte do dia, depois de ter feito o dever de casa, ninguém me ensinou assim, mas o lado bom de ficar sozinha é que ninguém fica falando o quê ou como você deve fazer as coisas e ultimamente, eu sentia falta disso.
Durante a adolescência passei a querer mais tempo sozinha, principalmente em casa onde a cobrança era ainda maior. Eu passava a semana inteira grata por passar tanto tempo na escola e comecei a ser ainda mais grata quando passei a ter um quarto só pra mim e podia fazer as minhas coisas da maneira como eu quisesse, bastava fechar a porta e eu tinha um mundo novo só pra mim.
Minha mãe nunca entendeu esse meu amor pela solidão porque ela me criou pra ir com ela onde quer que ela fosse e fazer com ela tudo que ela queria/precisava fazer. Eu até que gostava de fazer coisas de adulto e ver minha mãe fazendo coisas de adulto era divertido, mas ai eu fui ficando adulta e querendo fazer as minhas coisas e logo eu não queria mais fazer essas coisas com ela. Em parte porque eu queria fazer sozinha e em parte porque tudo que eu fazia pra ela parecia errado. Pensando sobre isso, eu não consigo definir quando exatamente isso começou, mas foi rápido e doloroso, com certeza mais pra ela que pra mim. Tudo que eu sei dizer é que uma série gigantesca de fatores fizeram com que eu preferisse ver um filme a ter vários amigos, que eu optasse por um fim de semana lendo e fazendo faxina no quarto a ter um namorado, que eu escolhesse passar a maior parte do fim de semana trancada no quarto a sair com a minha mãe. E sim, eu fiz todas essas escolhas. E sim, as vezes é bem triste. Mas não, eu não me arrependo. Cada dia que passa eu quero mais paz e menos conflito e ficar sozinha me oferece isso.
Não tenho decepcionado ninguém porque estando sozinha as únicas necessidades as quais eu tenho que atender, são as minhas. Eu não preciso fingir que tenho uma vida perfeita, porque eu simplesmente não preciso fingir pros outros que ta tudo bem e eu adoro isso. Adoro não precisar viver uma mentira, fingir que estou sentindo algo sempre foi algo que odiei fazer e agora, eu tô sozinha e as vezes eu me sinto sozinha... Mas me sinto grata por esse momento que é triste, mas também cheio de mim.

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